28 de outubro de 2015

Para um bom apetite é preciso desconectar!

Por Jeferson Rodolfo Cristianini


Vivemos numa era digital com uma geração cada vez mais conectada. Os aparelhos tecnológicos – smartphones, tablets, etc – são sedutores. À procura de informação e interação social, as pessoas ficam ligadas neles diariamente. Encurtando distâncias e facilitando a comunicação, a internet se transformou em um universo quase ilimitado de interação.
Contudo, quem nunca ficou irritado com alguém sentado a mesa mexendo no smartphone? Os donos dos restaurantes e lanchonetes se dividem. A maioria disponibiliza senhas do wifi para que os clientes possam ficar conectados, outros não disponibilizam acesso a internet e colocam placas dizendo “Não temos wifi. Conversem entre vocês”. Estamos tão conectados a ponto de não sabermos mais viver sem os smartphones. Eles estão em nossas mãos em todos os lugares. Nossa dependência é tanta que já existem vídeos ensinando como higienizar os aparelhos, pois muitas pessoas levam o aparelho para o banheiro. Lá, as mulheres aproveitam o espelho e tiram uma selfie, e os homens acompanham as últimas notícias de futebol. Na mesa, durante as refeições, as pessoas mergulham na virtualidade e não desgrudam dos smartphones. As mensagens e instantâneas e as notificações das redes sociais chamam o tempo todo.
À mesa, as pessoas fotografam o prato e em segundos já está nas redes sociais, com a marcação do respectivo restaurante. Enquanto os alimentos estão esfriando, fotografa-se a o prato e, depois de postar, vem a foto das pessoas que circundam a mesa. Quando, finalmente, começam a comer e, então, se poderia interagir com as pessoas, a maior preocupação é com a vida digital. E como tudo na vida digital é urgente e imediato, temos que atualizar as nossas conversas virtuais e acabamos nos esquecendo de valorizar quem está diante de nós.
Uma pesquisa publicada pela Folha de São Paulo diz que 62% dos americanos concordam que usar celular no restaurante “não é OK” (segunda-feira, 07 de setembro de 2015. A14 Folhainvest). Os americanos, que são os mais conectados do mundo e quem mais está presente nas redes sociais, não aprovam a prática de se alimentar e ficar atento ao celular. Parece que não conseguimos mais deixar de lado os aparelhos e focar nos relacionamentos pessoais. A geração digital é cada vez mais egoísta e, no fundo, sente falta de relacionamentos pessoais sólidos e duradouros. Mesmo assim não valoriza quem está perto e sim quem está online.

Que tal apreciar a boa comida, sentir o cheiro agradável do prato, desfrutar da mistura de sabores, da amizade e da companhia? Desconecte. Viva a interação social pessoal e aproveite para fazer uma refeição com seus familiares e amigos. Depois você volta para a vida digital, que é fácil de acessar e não precisa de tanto investimento quanto os relacionamentos da vida real. Desligue. Desconecte e ore. Celebre a amizade e bom apetite.

Fico imaginando como deve estar nossa vida devocional com Deus. Se nosso devocional se tornou tão virtual, o que mais é real em nossa vida? Nossos relacionamentos são tão impessoais que penso se não começamos a desgostar de um relacionamento tão intimo com um ser só: Deus. Esse único ser que é suficiente em si, que é demais para ser só nosso, mas que supre a ausência de todos e de qualquer um. Esse único ser que merece nossa atenção, mais do que os nossos celulares ou tabletes. Esse único ser que garantia uma conexão sem interferências quando nos dirigimos a Ele.
Como será que está o nosso coração? Mais perto da Vida?

16 de fevereiro de 2012

SALMO 27.14

"Espera no SENHOR, anima-te, e ele fortalecerá o teu coração; espera, pois, no SENHOR."
Sim, amigo, há momentos na travessia
-- que fazem parecer seu dia um tempo vão --
em que perseverar é palavra vazia,
inútil como uma mesa onde falta o pão.

Você lê que deve manter viva a alegria
para conservar firme o coração
-- mas como? se foi toda a energia
despejada, a contragosto, no chão?

Como esperar pelo Senhor,
-- como pede, pela fé, o salmista --
se não há nenhum amanhã à vista?

Contudo, não há palavra melhor;
escute-a, de novo, para que não desista:
persevere até sentir que Deus é amor.

Israel Belo de Azevedo

31 de maio de 2011

Não desperdície sua vida!


"Segundo a minha intensa expectação e esperança, de que em nada serei confundido; antes, com toda a confiança, Cristo será, tanto agora como sempre, engrandecido no meu corpo, seja pela vida, seja pela morte. Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho."
(Filipenses 1:20-21)

"Porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo. E, se invocais por Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de cada um, andai em temos, durante o tempo da vossa peregrinação, sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais, mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado, o qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós; E por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos, e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus; Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingindo; Amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro; Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, e que permanece para sempre."
(I Pedro 1:16-23)

26 de abril de 2011

Fraqueza de Deus

Boa parte do ateísmo contemporâneo baseia-se na objeção enunciada com muita força no passado por J. P. Sartre e retomada pelos seus discípulos: “Se Deus existe, eu não sou nada”.
Se existe um Deus onipotente, o que ainda sobra para mim? Essa presença ao meu lado do poder absoluto torna irrisórias todas as minhas ações. Diante do infinito, todo o finito torna-se irrelevante. Há muitas maneiras de enunciar o argumento.
A objeção foi formulada desde a Idade Média, mas não conseguiu convencer. A resposta diz que Deus e o homem não se situam no mesmo plano, como duas liberdades em competição.
A resposta não convenceu porque durante séculos os teólogos debateram a questão da predestinação, isto é, da compatibilidade entre a liberdade de Deus todo-poderoso e a liberdade humana. Assim fazendo, situaram no mesmo plano as duas liberdades. Se os teólogos – tomistas, dominicanos e jesuítas – tomaram essa posição durantes séculos, não é estranho que filósofos façam a mesma coisa.
De qualquer maneira, a pessoa sente tantas vezes o conflito entre a sua vontade, o seu desejo e o que diz que é a vontade de Deus, que a reação parece inevitável. Os sartreanos sustentam que, para ser livre, é necessário negar a existência de Deus. Infelizmente para eles, Deus não depende das negações ou das afirmações de Sartre.
A verdadeira resposta está na fraqueza de Deus. O nosso Deus é um Deus “escondido” – tema constante da tradição espiritual cristã.

É um Deus que se manifesta no meio da nuvem, que se faz perceptível, mas não impõe a sua presença.
A liberdade consiste justamente nisto: diante do outro, a pessoa pára, reconhece e aceita que exista. Abre espaço, acolhe. Longe de dominar, escuta e permite que o outro fale primeiro. Assim Deus suspende o poder de Deus.
Nenhuma evidência, nenhuma ameaça, nenhum constrangimento força nem obriga. Deus permite e deixa fazer. Deus respeita o outro na sua alteridade e permite, até mesmo, que o outro se destrua sem intervir. A liberdade de Deus consiste em permitir e ajudar a liberdade do menor dos seres humanos. A liberdade de Deus reprime o poder. Torna-se fraca para que possa manifestar-se a força humana.
O hino de Filipenses 2.6-11, núcleo da cristologia paulina, expressa essa fraqueza de Deus. Pois o aniquilamento de Jesus incluía o aniquilamento do Pai: "Esvaziou-se a si mesmo e assumiu a condição de escravo, tomando a semelhança humana. E, achado em figura de homem, humilhou-se a foi obediente até a morte, e morte de cruz!” (Fl 2.7-8).
Deus escondeu o seu poder até a ponto de as autoridades de Israel não o reconhecerem. É desta maneira que Deus se dirige às pessoas: sem intimidação, sem poder, na dependência de seres humanos, entregando a própria vida nas mãos de criminosos. Quem dirá que dessa maneira Deus faz violência às pessoas?
Como comentou Levinas, o outro é o desafio da liberdade, a provocação que a desperta. Diante do outro há duas atitudes: examiná-lo para ver em que lê me poderia ser útil ou qual é a ameaça que representa para mim, ou então, perguntar-me o que eu poderia fazer para ajudá-lo.
A liberdade de Deus autolimita-se. Diante da sua criatura, Deus limita sua presença. Deus preferiu antes deixar que crucificassem o seu Filho a intervir para impedir tal justiça. Trata-se de fraqueza voluntária.
É verdade que durante muitos séculos, sobretudo na pregação popular, os pregadores apresentaram uma concepção bem diferente de Deus. Usaram temas e comportamentos da religião popular tradicional: medo diante do trovão, medo da seca e de cataclismos naturais – entendidos como castigos divinos –, medo das doenças recebidas também como castigos e assim por diante.
Era fácil despertar o temor a partir de idéias puramente pagãs ou supersticiosas. Essa pregação de terrorismo religioso podia dar resultados imediatos, levando milhares de pessoas aos sacramentos. A longo prazo, porém, destruíram as bases da credibilidade da Igreja. Hoje a maioria das pessoas deixaram de ter medo do trovão, não sendo mais motivo para temer a Deus, como foi no passado. Naquele tempo achou-se válido o método do temor, todavia hoje recolhe-se os frutos dessa pastoral.
Pensou-se que os povos precisassem temer um Deus forte – e desprezariam um Deus fraco. Tais erros se pagam cedo ou tarde. Estamos pagando hoje esse preço.
Deus torna-se fraco porque ama. Quem mais ama é sempre mais fraco. Não será essa a grande característica das mulheres? Quase sempre amam mais, e, por isso, sofrem mais. Porém, nessa fraqueza consentida não estará a maior liberdade?
Nessa fraqueza a pessoa vence todo o egoísmo, todo o desejo de prevalecer, toda a preguiça de aceitar maiores desafios. Exige mais de si própria, vai mais longe, além das suas forças. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (João 15.13). Aí está também a expressão suprema da liberdade.
A fraqueza de Deus vai até a ponto de se tornar suplicante. O versículo predileto do saudoso teólogo latino-americano Juan Luís Segundo diz; “Eis que estou batendo na porta: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo (Apocalipse 3.20).
Deus bate na porta e aguarda. Se não é atendido, afasta-se e continua o caminho. Somente entra se é convidado. Depende do convite da pessoa. Deus torna-se pedinte, suplicante.
José Comblin

(extraído de "Vocação para Liberdade" - Editora Paulus. Os grifos são de Ricardo Gondim).

21 de abril de 2011

É o Cordeiro, não o coelho!!!

A sociedade secularizou o natal. Tirou o foco de Jesus para Papai Noel e da paz de Deus aos homens por meio de Jesus em fraternidade. O aspecto vertical foi substituído pelo horizontal.
Sucedeu o mesmo com a páscoa. A páscoa judaica (sua instituição está em Êxodo 12) era uma profecia da obra de Jesus. Mas Jesus foi transformado em coelhinho, que ainda por cima bota ovos de chocolate. E negar isso é desmancha-prazeres! A ceia de Jesus com os discípulos, formatando a igreja como corpo e família, cede lugar a uma ceia com a família sanguínea. É a adaptação do evangelho pela sociedade secular, e a privatização da fé pelas pessoas.
Tudo depende da visão que temos da obra de Jesus. Sua missão é incompreendida! Para muitos, ele veio pregar amor. Ora, todo mundo prega amor. E ninguém é crucificado por isto. Para alguns, ele veio nos abençoar. “Venha buscar sua bênção”, é uma faixa que se tornou comum em muitas igrejas, na feroz disputa por clientes. É a distorção de Jesus para fins próprios.
Há a visão de que Jesus veio para nos fazer felizes. Vi uma faixa com esse dizer: “Você nasceu para ser feliz! Venha pra cá!”. Reflexo de uma sociedade fútil, vazia, que pensa apenas em felicidade, nunca em valores e ideais. O homem moderno colocou seu “eu” como Deus. Tudo existe em função dele. Esta cultura, que é demoníaca, migrou para a igreja. As pessoas não se vêem como instrumentos de Deus, mas vêem Deus como seu instrumento. Algo que elas podem usar na sua infantil busca de felicidade e de prazer.
O que é o evangelho de Jesus? Um passaporte para Shangrilá, a terra de prazeres? Uma passagem de primeira classe por este mundo? Um “vale bênção”? Que é o evangelho? A páscoa nos ajuda a entender o que ele é e quem é Jesus. Paulo expressou isto muito bem: “Irmãos, venho lembrar-vos o evangelho que vos anunciei, o qual recebestes e no qual ainda perseverais; por ele também sois salvos, se retiverdes a palavra tal como vo-la preguei, a menos que tenhais crido em vão. Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1Co 15.1-4).
Isto é o evangelho. E é isto que comemoramos nesta semana: Cristo morreu pelos nossos pecados (não para nos dar bens ou felicidade) e ressuscitou. Ele não é um ideal, nem um Grande Doador de Coisas. E não comemoramos o Cristo morto, mas o Vivo, Ressuscitado, que virá em poder e glória: “Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Certamente. Amém!” (Ap 1.7).
Dê ovinho de chocolate, mas não faça do coelho o animal da festa. É o Cordeiro!
Pr. Isaltino Gomes